LÉLIA GONZALEZ (1935-1994)
“Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual.”
Linha do tempo:
1935: Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte. Foi a décima-sétima de uma família com dezoito filhos. Assim como seus irmãos mais velhos, trabalhou desde cedo; seu primeiro emprego foi como babá. Mas, diferentemente do restante da família, teve mais oportunidades educacionais e seguiu seus estudos em escolas públicas.
1962: Concluiu sua graduação em História e Geografia e também em Filosofia pela Universidade Estadual da Guanabara, atual UERJ.
1964: Casou-se com Luiz Carlos Gonzalez, que conheceu no ambiente universitário. O matrimônio foi marcado por amor, cumplicidade e reflexão racial, mas foi responsável por um grande trauma em sua vida por conta da rejeição que Lélia sofreu por parte da família (europeia) de seu marido, que não admitia o laço conjugal.
1965: Passou a lecionar em universidades como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Gama Filho (UGF), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e, também, em Colégios, como o Santo Inácio e o Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Estado do Rio de Janeiro (CAP-UERJ).
Década de 1970: Fez parte do grupo de fundadores do Movimento Negro Unificado – MNU, principal canal de ressurgimento da luta pela igualdade racial, nos anos 70, do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras do Rio de Janeiro – IPCN-RJ, do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras, do Olodum (Salvador).
1981-1984: Compôs o primeiro diretório nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), sempre preocupada com o ponto de vista marxista do partido sobre a questão racial. Foi candidata a deputada federal em 1982, com sua exclusão da coordenação do MNU, além de assessora de Benedita da Silva, eleita vereadora no Rio de Janeiro. Também publicou Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, A mulher negra no Brasil e Lugar de Negro.
1985-1987: Desfiliou-se do PT do Rio de Janeiro por não ter trabalho efetivo na questão racial e, em 1986, foi candidata à deputada estadual pelo PDT. Dois anos depois, participou da assembleia constituinte.
1988: Publicou Por um Feminismo Afro-latino-Americano e A categoria político-cultural de amefricanidade.
1989: Foi exonerada do cargo no Planetário da Gávea e rompeu com o PDT.
1991: Começou a atuar no centro Hilton Cobra.
1994: Faleceu no Rio de Janeiro, enquanto ocupava o cargo de diretora do Departamento de Política e Sociologia da PUC-Rio.
Quais as contribuições de Gonzalez?
Lélia Gonzalez foi uma antropóloga, filósofa, professora, feminista e ativista do movimento negro. Apesar de o centro do trabalho da autora ter estado na temática da mulher, a autora se preocupou também com outros assuntos: democracia racial, feminismo, movimento negro, questão nacional, cultura brasileira, democracia, racismo, sexismo, resistências sociais, culturais e políticas e organização coletiva e crítica ao eurocentrismo. Ela adotou um arcabouço teórico que vai da história à filosofia, passando pela psicanálise, antropologia e sociologia.
Gonzalez tem sido referência para movimentos antirracistas e feministas. Em seu trabalho, é possível mencionar três abordagens: a decolonial, a interseccional e a psicanalítica. A decolonial estabelece uma crítica ao viés eurocêntrico das ciências sociais e do feminismo ocidental. O olhar interseccional envolve as dimensões da dominação sexual, de classe e de raça articuladas nas formas de opressão e hierarquização racial, bem como na formação de identidade de afirmação coletiva. A abordagem psicanalítica permite a reflexão sobre a cultura via canais de comunicação entre a psicanálise e as ciências sociais, mediante explicações interdisciplinares. É possível destacar que, além da contribuição de Lélia no âmbito do movimento feminista e antirracista, sua originalidade conceitual contribuiu para a interpretação do capitalismo brasileiro.
Onde encontrar as ideias de Gonzalez?
- Lugar de Negro (1982)
- Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1983)
- A mulher negra no Brasil (1984)
- A categoria político-cultural de amefricanidade (1988)


